Maria Luiza Viana – Professora do Departamento de Tecnologia do Design, da Arquitetura e do Urbanismo da UFMG. Possui doutorado em Design pela USP, mestrado em Arte e Tecnologia da Imagem e graduação em artes visuais pela UFMG .
O artista visual Gabriel de Souza, Gabre, como gosta de ser chamado, nasceu em Belo Horizonte e mora, com sua família, no bairro Palmital, Santa Luzia, Minas Gerais, local onde seus avós, oriundos do norte de Minas, se fixaram na década de 1980, depois de residirem em vários outros bairros de Belo Horizonte.
Gabre considera-se um luziense, pois foi no bairro Palmital, onde ele cresceu, estudou e fez amigos. No entanto, como tantas outras pessoas que residem na região metropolitana, ele tem Belo Horizonte como referência para a sua formação artística, pois é onde estão disponíveis e acessíveis muitos espaços, instituições, projetos e cursos de artes.
O Palmital teve sua origem ligada à expansão urbana da região metropolitana de Belo Horizonte na década de 1980, em decorrência da implementação da política habitacional vigente, que atraiu um grande contingente de famílias vindas de outros bairros e de outras cidades do interior para terem acesso à moradia e às oportunidades de trabalho. Assim, segundo Gabre, o bairro foi crescendo com características de interior, diferente de outras periferias urbanas de Belo Horizonte e de outras capitais.
Ele complementa que a forma como as pessoas vivem no dia a dia, cuidam das suas casas, se comunicam, o que elas comem, como se vestem, vai lhe dizendo sobre esse lugar. O fato também de as pessoas viverem muito próximas umas das outras, acaba fazendo crescer uma forma de sobrevivência baseada na coletividade e no apoio mútuo. Tudo isso, ele considera ser uma singularidade. As pessoas que chegam no bairro vão passando o conhecimento para a frente e vai se criando uma linguagem, própria da comunidade.(Gabre, 2026).
Para ele, no Palmital, mesmo sendo apontado como um local que tem muitos conflitos e violência, as pessoas foram aprendendo a conviver em comunidade, com um senso de bem comum muito forte, de aquilombamento.
Pode-se dizer que a consciência da formação histórica política e social do território, e como ele e sua família se situam neste contexto, repercutem fortemente no trabalho de Gabre.
Com uma técnica de pintura bastante apurada, Gabre retrata, dentre outras temáticas, figuras masculinas negras, carregando-as de aspectos sensíveis e delicados. Suas imagens refletem o fato de ele ter crescido em um ambiente onde o homem preto corresponde a uma parcela da população que não cuida muito de si, sendo a que mais adoece e acaba morrendo mais cedo, e como é notório nas famílias de perferiferia, eles vão desaparecendo e as mulheres vão ficando.

Seu trabalho surge da necessidade dele se ver representado e de apresentar essas questões que o atravessam e que são invisibilizadas, pois, segundo ele, quando algo não é observado, não é mostrado.
Procura se enxergar nesta problemática e olhar para si mesmo como um homem sensível e que não é violento, perigoso, uma ameaça, como muitas vezes esse corpo é visto na sociedade. Nesse sentido, suas pinturas expressam beleza, delicadeza e, algumas vezes, uma certa melancolia, refletindo como esses sujeitos precisam também de cuidado, de carinho, de atenção e de investimento.
O repertório de suas pinturas tem a ver também com imagens de filmes, séries, novelas, desenhos que ele sempre assistiu, e carrega uma forte referência na caricatura, cuja propósito é enfatizar uma característica marcante do rosto de uma pessoa, recurso que ele aplica nas feições de pessoas pretas.
Para situar como isso se insere no seu trabalho, ele referencia a forma como o racismo no Brasil é definido pela cor e pelo fenótipo das pessoas, ou seja, quanto mais ela tem a pele escura e os traços marcantes, como o nariz largo, a boca grande etc, mais ela se aproxima das características de uma pessoa africana, e mais ela é discriminada, pois esses traços estão historicamente associados a um aspecto negativo. Essa questão tem correspondência no processo de embranquecimento e de miscigenação que ocorreu no Brasil e que, intencionalmente, adotou políticas, leis e outras estratégias para apagar traços da ancestralidade africana existentes até que este não parecesse mais um país negro.
Gabre utiliza o recurso da caricatura para realçar ainda mais esses traços da africanidade e “brincar” com a desproporção das partes dos rostos, chamando a atenção para o racismo existente nesse processo. O artista se considera um retratista, pois ele gosta de pintar figuras de forma realista, mas também da possibilidade de misturar as características de pessoas que não existem. De fato, essa dualidade, que funde o retrato com a caricatura, traz um caráter especial para as suas obras.
Há também o fator da cor da pele negra, por isso ele ressalta a tez das pessoas mais retintas, enfatiza o brilho natural e atribui uma paleta de cores com uma enorme variedade de tons amarronzados.
Um dos objetivos de Gabre é fazer com que a arte como um bem cultural universal chegue às pessoas que historicamente ficaram fora do seu acesso, pois por muito tempo, ela serviu estritamente aos interesses da nobreza, do clero, da burguesia, do mercado. No entanto, de acordo com ele, hoje em dia, mesmo que uma boa parte dos artistas consiga acessar os sistemas de produção, de teoria e de formação em artes, não é comum entrarmos numa casa em uma comunidade de periferia e nos depararmos com uma pintura ou outro tipo de imagem de uma pessoa daquela família numa parede, como forma de registro de sua ancestralidade. Isso acontece porque boa parte da população não está acostumada a ter contato com esse tipo de arte, pois historicamente lhes foi negado esse direito. E são muitas as dificuldades para o acesso das pessoas que vivem nas periferias aos produtos e espaços culturais que estão fora dos contextos nos quais elas vivem, e também, geralmente, essas pessoas estão mais ocupadas, tentando sobreviver (Gabre, 2026).
Nesse sentido, ele procura romper com essa estrutura, colocando, por exemplo, uma pintura da sua avó na sala de sua casa: Meus filhos vão ver como que era a minha avó, a minha bisavó, porque eu vou ter pinturas delas. Quando eu trago minhas pinturas para dentro de casa, eu represento a mim mesmo e as pessoas que são parecidas comigo. (Gabre, 2026).
Para compreender este artista de forma mais profunda, foi necessário adentrar no seu território e conhecer o local onde ele produz suas obras. Pode-se dizer que seu atelier no Palmital é a sua própria casa. Em todos os cômodos, há pincéis, latas de tinta e pinturas em processo. Algumas telas estão fixadas nas paredes da sala, em um dos quartos e na copa. No espaço externo da casa, vê-se um cavalete, materiais e objetos de pintura, e parece ser o espaço mais utilizado por ele para a sua produção. Isso revela um caráter intimista do artista e reforça ainda mais o sentido de que tudo que ele faz é compartilhado ali, com a sua família e tudo contribui para compor a sua obra. Segundo ele “… é a minha casa ateliê. Eu meio que ocupei da minha casa. E a cada dia eu vou entendendo o quão importante é eu me manter conectado às minhas raízes, à minha ancestralidade, ao lugar onde eu cresci e tudo que ele representa … (Gabre, 2026).
Assim, pode-se entender que sua identidade como artista é um prolongamento das relações e das conexões que ele faz. Uma experiência arraigada nos laços, nas memórias e nas relações construídas na convivência e nas histórias contadas por seus familiares e seus vizinhos. Sua trajetória artística começa bem cedo e é marcada pelo apoio de uma tia que lhe proporcionou os primeiros contatos com o desenho, a pintura e o artesanato. Uma experiência que perpassa também a participação em projetos sociais públicos, como Valores de Minas e o Arena da Cultura que contribuíram para a sua formação em artes visuais, passando também pelo Graffiti, dança, dança de rua, música. Ressalta-se a atuação no Programa Fica Vivo, no qual ele foi aprendiz e também educador; soma-se o seu ingresso recente no curso de graduação em Artes Visuais da UFMG e o seu envolvimento com a produção audiovisual.
Enfim, tudo isso nos diz sobre o artista, sobre o lugar que ele social e politicamente ocupa e sobre a reverberação que o seu trabalho pode provocar e alcançar.
A potência de Gabre está no fato de ele evocar referências da sua família, da sua ancestralidade, da sua comunidade, experiências que se mesclam aos signos das mídias, da cultura urbana que circulam e se cruzam entre os centros e as periferias e compõem e refletem no seu trabalho em uma narrativa sensível, apurada, crítica e contemporânea.