Da infância cercada por mulheres em Salvador à construção de uma carreira na maquiagem, Fellipe Palmeira encontra na valorização das diferentes tonalidades de pele negra uma maneira de questionar padrões históricos da indústria e ampliar as possibilidades de representação
Autor: Jaice Balduino
Uma mulher negra retinta se prepara para uma ocasião especial e decide confiar seu rosto às mãos de um profissional de maquiagem. O que deveria ser uma experiência de cuidado e valorização da própria imagem termina em constrangimento. Ao olhar o resultado, sua pele já não apresenta a tonalidade que a acompanha desde o nascimento. A maquiagem havia deixado seu rosto acinzentado, esbranquiçado, distante de sua aparência natural. A lembrança, testemunhada por Fellipe Palmeira ainda na infância, permaneceu com ele muito antes de a beleza se tornar sua profissão.
Naquele momento, talvez não fosse possível compreender todas as dimensões raciais, sociais e históricas envolvidas no episódio. Anos depois, entretanto, a memória ajudaria a orientar sua atuação como maquiador e a maneira como passou a observar uma indústria que, durante décadas, tratou a pele branca como referência predominante para a criação de produtos, técnicas e representações de beleza.
“Essa pessoa teve uma experiência traumatizante, porque o profissional deixou essa pessoa cinza, esbranquiçou a pele. Essa pessoa era uma mulher retinta”, recorda. Para Fellipe, a situação evidenciou a existência de um padrão que precisava ser questionado. “A maior questão que eu tive em relação à indústria de beleza é justamente quebrar essa ideia de que o padrão branco é o ideal e que todas as peles merecem ser bem observadas.”
A reflexão acompanha uma trajetória que começou muito antes de seu primeiro atendimento profissional. Nascido e criado em Salvador, na Bahia, Fellipe cresceu em uma família na qual a convivência com mulheres foi fundamental para a construção de sua percepção estética. Sua avó teve cinco filhas e dois filhos, e foram principalmente as presenças femininas que marcaram suas experiências durante a infância.
Em casa, aprendeu a observar cores, gestos, expressões e maneiras de existir. A beleza, naquele ambiente, não estava necessariamente associada a cosméticos ou procedimentos. Manifestava-se na convivência cotidiana, na relação com o corpo e na forma como aquelas mulheres ocupavam o mundo.
“Eu fui criado em uma casa com cinco mulheres. Elas me ensinaram a beleza na vida, a beleza de viver”, conta. Desde pequeno, ele se reconhecia como uma pessoa especialmente atenta às imagens. Tudo o que envolvia cores e composições visuais despertava sua curiosidade.
Essa formação afetiva aconteceu em uma cidade cuja relação com a estética negra atravessa a música, a religiosidade, a moda, os penteados, as festas populares e as manifestações culturais. Salvador, uma das principais referências da cultura afro-brasileira, também é um território onde a população negra constrói e reinventa linguagens de beleza que nem sempre receberam reconhecimento proporcional da indústria nacional.
Para Fellipe, a cidade continua sendo uma referência incontornável. “Eu acho que não existe lugar no mundo para se falar de beleza que seja páreo para Salvador. Eu serei um eterno apaixonado pelo lugar onde eu nasci e me criei.”
Sua relação com a capital baiana ajuda a compreender por que a maquiagem, em sua trajetória, não se limita à transformação de uma aparência. Ela se tornou uma linguagem por meio da qual ele interpreta histórias, identidades e experiências individuais.

Quando a beleza se tornou uma possibilidade profissional
Embora a sensibilidade estética estivesse presente desde a infância, Fellipe não cresceu imaginando que construiria uma carreira como maquiador. Sua primeira escolha profissional foi a comunicação. Formado em Jornalismo, encontrou na área uma maneira de trabalhar com algo que sempre o interessou, a transmissão de mensagens e a possibilidade de estabelecer conexões entre pessoas.
A maquiagem surgiu durante a faculdade, em um período que ele descreve como especialmente delicado. Enquanto enfrentava um processo depressivo e questionamentos pessoais, começou a experimentar a atividade como uma forma de encontrar alívio para suas inquietações.
A prática, inicialmente distante de qualquer planejamento empresarial, oferecia um espaço de criação e expressão. “A beleza chegou para mim num momento da minha vida muito delicado, onde eu passei por um processo depressivo durante a faculdade. E a beleza chegou como um respiro, como um alívio mesmo de todas essas inquietações.”

Por algum tempo, acreditou que a maquiagem permaneceria apenas como um hobby. A mudança de perspectiva aconteceu quando uma amiga de sua mãe pediu que ele a maquiasse para um evento. O atendimento mostrou que aquela habilidade, desenvolvida inicialmente por interesse pessoal, também poderia se transformar em uma atividade remunerada.
A descoberta não significou uma ruptura completa com o jornalismo. Ao contrário, Fellipe passou a reconhecer aproximações entre as duas áreas. Se a comunicação havia despertado seu interesse pela construção de narrativas, a maquiagem oferecia outra possibilidade de contar histórias, agora por meio de cores, texturas e intervenções artísticas sobre o rosto.
A passagem do interesse pessoal para a atuação profissional também colocou Fellipe diante de questões que ultrapassam o domínio técnico. Trabalhar com beleza significa compreender as expectativas de quem procura um serviço, reconhecer diferentes características de pele e lidar com referências estéticas que nem sempre contemplam a diversidade brasileira.
No caso de profissionais que atuam com peles negras, essa responsabilidade ganha uma dimensão particular. A escolha inadequada de uma base, por exemplo, pode resultar em um acabamento acinzentado, enquanto o desconhecimento dos diferentes subtons compromete a naturalidade do resultado. São questões técnicas que também revelam como a formação profissional e a oferta de produtos podem reproduzir desigualdades raciais.
Um mercado bilionário que ainda precisa aprender a enxergar a população negra
A experiência que marcou a infância de Fellipe não representa apenas uma falha individual de um maquiador. Ela ajuda a compreender um problema mais amplo, relacionado à maneira como a indústria da beleza estruturou seus produtos, referências visuais e processos de formação profissional.
O Brasil ocupa a terceira posição entre os maiores mercados consumidores de beleza e cuidados pessoais do mundo, atrás dos Estados Unidos e da China. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), o setor movimentou aproximadamente R$ 200 bilhões em 2025, considerando a estimativa mais ampla de seu mercado, e reúne cerca de 7 milhões de oportunidades de trabalho ao longo da cadeia produtiva. No mesmo período, foram registrados 7.359 lançamentos de produtos, colocando o país entre os principais mercados de inovação do segmento. ABIHPEC+1
A dimensão econômica contrasta com dificuldades que ainda fazem parte da experiência de consumidores negros. De acordo com o Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 55,5% da população brasileira se declarou preta ou parda. São mais de 112 milhões de pessoas que, embora representem a maioria da população nacional, nem sempre encontram nas prateleiras, campanhas publicitárias e serviços de beleza a diversidade correspondente às suas características.

Um levantamento da DSM, realizado com 106 mulheres negras e divulgado pela plataforma Negócios de Beleza, da Beauty Fair, identificou que 65,09% das entrevistadas enfrentavam dificuldades para encontrar produtos adequados ao seu tipo de pele. Embora a amostra seja limitada e não permita generalizar o percentual para todas as brasileiras negras, o resultado evidencia uma barreira concreta de consumo. Beauty Fair
Em outra pesquisa, conduzida pela marca Bond com mulheres das classes A e B de diferentes tons de pele, 28% das participantes apontaram a escolha incorreta de cor ou tonalidade como uma das principais dificuldades na compra de cosméticos. O levantamento, realizado em sete cidades brasileiras ao longo de 2024, também identificou problemas relacionados à durabilidade dos produtos, à variedade de opções e à disponibilidade de amostras. Meio e Mensagem
Esses dados ajudam a explicar por que o acesso à maquiagem não pode ser medido apenas pela presença de produtos nos estabelecimentos comerciais. Encontrar uma base que corresponda à tonalidade da pele, receber atendimento de profissionais preparados e ter acesso a produtos de diferentes faixas de preço são condições que interferem diretamente na experiência de consumo.
A dificuldade se torna ainda mais evidente entre pessoas de pele retinta. Durante muitos anos, parte das marcas trabalhou com cartelas reduzidas de bases e corretivos, concentrando suas opções nas tonalidades claras e intermediárias. Mesmo com a ampliação recente das linhas de maquiagem, a disponibilidade de tons escuros não garante, isoladamente, que os produtos respeitem as particularidades de cada pele.
Em reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, em maio de 2024, especialistas e consumidoras negras relataram dificuldades para encontrar bases adequadas, incluindo produtos que deixavam a pele acinzentada ou esverdeada. A matéria também abordou a necessidade de incluir profissionais e consumidores negros nas etapas de desenvolvimento, teste e comercialização dos cosméticos. Folha
O problema está relacionado, entre outros fatores, ao conhecimento dos subtons da pele. Duas pessoas negras podem apresentar tonalidades aparentemente próximas, mas demandar produtos com composições de pigmentos diferentes. Quando essas particularidades são ignoradas, a maquiagem pode alterar artificialmente a cor do rosto, criando uma aparência distante daquela que a pessoa deseja preservar.
É justamente nesse ponto que a memória de Fellipe encontra um debate contemporâneo. A mulher de sua família que teve o rosto embranquecido não precisava de uma maquiagem que a aproximasse de um padrão de beleza estabelecido por outras pessoas. Precisava de um profissional capaz de reconhecer sua pele e trabalhar a partir dela.
A ampliação da diversidade de produtos é um avanço importante, mas não resolve todas as desigualdades do setor. Também é necessário discutir quem participa da criação das fórmulas, quais profissionais são contratados para campanhas e editoriais, quem recebe oportunidades de formação e quais referências estéticas são consideradas legítimas.
Para profissionais como Fellipe, dominar técnicas de maquiagem em peles negras não deveria ser entendido como uma especialização excepcional, mas como parte indispensável da preparação de qualquer pessoa que deseja atuar em um país majoritariamente negro.
O rosto de uma mulher de 90 anos e a confiança depositada em suas mãos
Entre os encontros que marcaram a carreira de Fellipe, um permanece especialmente significativo. Ele foi convidado a maquiar uma mulher negra retinta que completava 90 anos. Até aquele momento, ela nunca havia sido maquiada.
Enquanto trabalhava em seu rosto, o profissional ouviu histórias de diferentes fases da vida daquela mulher. A experiência ganhou uma dimensão que ultrapassava a preparação para uma comemoração de aniversário. Diante dele estava alguém que havia atravessado nove décadas de transformações sociais e que, naquela ocasião, confiava sua imagem a um maquiador ainda em início de carreira.
“Uma mulher negra retinta, que teve seu rosto maquiado pela primeira e única vez na vida. Enquanto eu a maquiava, ela me contou muitas fases da vida dela”, recorda.
O que mais o impressionou foi a confiança depositada em seu trabalho. Para Fellipe, participar daquele momento significou ter acesso a uma história pessoal que não poderia ser reduzida ao resultado estético de um atendimento.
A experiência também permite refletir sobre a relação de mulheres negras de diferentes gerações com os serviços de beleza. O acesso a cosméticos adequados, a profissionais especializados e a espaços de cuidado foi historicamente atravessado por questões de renda, território, racismo e representação.
Para muitas mulheres, especialmente as que cresceram em períodos nos quais a publicidade e os padrões estéticos valorizavam predominantemente características brancas, reconhecer-se como destinatárias legítimas de determinados produtos e serviços não era algo garantido.
Não é possível afirmar quais fatores fizeram com que aquela senhora chegasse aos 90 anos sem ter sido maquiada. Sua história, entretanto, convida a pensar sobre quantas experiências de cuidado e expressão estética foram adiadas ou permaneceram fora do alcance de diferentes gerações.
Na lembrança de Fellipe, o que permanece é a troca construída durante o atendimento. A maquiagem abriu espaço para uma conversa entre duas pessoas de gerações distintas, unidas temporariamente pela confiança e pela disposição de compartilhar experiências.
Esse encontro também contribuiu para consolidar sua compreensão de que cada pessoa chega à cadeira de maquiagem trazendo expectativas, memórias e maneiras particulares de se enxergar.
“Cada um enxerga o mundo à sua maneira, com as suas particularidades, e eu acho que isso é muito bonito”, afirma. Para ele, a pluralidade continua sendo um dos maiores aprendizados proporcionados pela profissão.
A confiança que abre caminhos
Outra pessoa que ocupa um lugar importante na trajetória de Fellipe é Cleydson Santana, influenciador digital e também natural de Salvador. A relação profissional entre os dois se desenvolveu a partir da admiração que o maquiador já nutria pelo trabalho de Cleydson e se transformou em uma amizade.
Fellipe conta que encontrou nele alguém disposto a confiar em suas propostas criativas, experimentar possibilidades e reconhecer seu potencial em um momento importante da carreira.
“Amigo, eu confio em você, eu confio no seu trabalho”, ouviu de Cleydson, segundo seu relato.
A frase, aparentemente simples, representou um incentivo significativo. Em um mercado no qual a visibilidade pode determinar o acesso a clientes, projetos e oportunidades, estabelecer relações de confiança também faz parte do desenvolvimento profissional.
A parceria permitiu que Fellipe explorasse ideias de maquiagem e encontrasse espaço para sua expressão artística. Com o tempo, a relação ultrapassou os limites dos atendimentos e passou a ocupar um lugar importante em sua vida pessoal.
A experiência evidencia uma dimensão do trabalho na beleza que dificilmente aparece nas estatísticas econômicas. Além do domínio técnico, profissionais autônomos precisam construir redes de relacionamento, conquistar credibilidade, administrar expectativas e encontrar oportunidades para apresentar suas habilidades.
Para pessoas negras, essas redes podem ter uma importância particular diante de barreiras estruturais que afetam o acesso a determinados ambientes profissionais. A indicação, a colaboração e o reconhecimento entre pares podem contribuir para ampliar a circulação de talentos, embora não substituam a responsabilidade das empresas em estabelecer processos mais inclusivos.
Fellipe identifica uma mudança expressiva em sua trajetória profissional nos últimos três anos. Ele não detalha todos os projetos que marcaram esse período, mas reconhece que foi a partir dessa transformação que passou a imaginar possibilidades antes distantes.
“Quando criança, eu confesso que não tinha tantos sonhos em relação à beleza, porque para mim não era uma possibilidade. Então, eu estou começando a sonhar agora que as coisas têm acontecido.”
A declaração revela uma questão importante sobre a construção de perspectivas profissionais. Nem sempre a ausência de um sonho significa falta de interesse ou ambição. Em determinadas circunstâncias, pode refletir a dificuldade de reconhecer caminhos concretos para chegar a espaços que parecem reservados a outras pessoas.
Sair de Salvador e circular por outros lugares contribuiu para ampliar o horizonte de Fellipe. A experiência de conhecer novos ambientes e estabelecer relações profissionais diferentes passou a alimentar expectativas que, durante a infância, não faziam parte de seu repertório de possibilidades.

Entre a arte e os algoritmos, o trabalho que não aparece nas redes sociais
As redes sociais transformaram profundamente a maneira como profissionais da beleza apresentam seus trabalhos, conquistam clientes e constroem reputação. Plataformas como Instagram e TikTok passaram a funcionar como portfólios, canais de relacionamento e espaços de divulgação de técnicas e tendências.
Para maquiadores independentes, essa dinâmica representa a possibilidade de alcançar públicos que antes dependiam principalmente de indicações pessoais, contatos com produtoras e oportunidades presenciais. Ao mesmo tempo, criou novas exigências para profissionais que, além de executar os serviços, precisam produzir imagens, vídeos, conteúdos e estratégias de divulgação.
A pesquisa Trend ou Rotina? Panorama do Consumo de Higiene e Beleza no Brasil, divulgada pela Globo em dezembro de 2025, aponta a importância crescente do ambiente digital na relação entre marcas e consumidores, especialmente em segmentos como maquiagem e cuidados com a pele. Embora os estabelecimentos físicos continuem relevantes, as plataformas digitais ampliaram os pontos de contato entre o público e os produtos. globo-gente
Para Fellipe, o Instagram funciona como uma vitrine de sua produção artística, mas também pode criar uma percepção incompleta sobre o cotidiano profissional.
O público que acompanha seu trabalho pelo perfil @belezabyfifo encontra a dimensão visual de sua atividade. Entretanto, os resultados apresentados nas publicações não revelam necessariamente a preparação, o esforço, as inseguranças e as decisões envolvidas na construção de uma carreira.
“Hoje é como se o Instagram fosse a grande validação de tudo o que é construído no offline”, observa.
O maquiador reconhece a importância das plataformas para ampliar o alcance de seu trabalho, mas questiona a associação entre qualidade artística e desempenho nas redes sociais. Na sua avaliação, o número de curtidas ou a repercussão de uma publicação não deveriam determinar o valor de uma criação.
“Eu realmente enxergo o Instagram como uma maneira de chegar até as pessoas, de comunicar a arte, mas não somente como a régua daquilo que é bom ou não porque foi engajado ou não.”
A reflexão se torna especialmente relevante em uma indústria que depende intensamente da imagem. O resultado visual de uma maquiagem pode alcançar milhares de pessoas em poucos segundos, enquanto os conhecimentos técnicos, a escuta e a experiência que sustentam aquele trabalho permanecem invisíveis.
A exposição também coloca profissionais diante de julgamentos constantes. Fellipe reconhece que a possibilidade de divulgar suas criações vem acompanhada de cobranças e avaliações feitas por pessoas que nem sempre conhecem o contexto de sua produção.
“Eu acho que o engajamento leva a gente para um lugar de superficialidade muito grande, e eu acho que a beleza não é nem um pouco superficial.”
Sua observação contraria a ideia de que trabalhar com aparência significa necessariamente atuar em um universo desprovido de profundidade. A maquiagem, como outras expressões artísticas, mobiliza referências culturais, conhecimentos técnicos, relações humanas e interpretações sobre identidade.
Em um país onde a população negra ainda enfrenta dificuldades para encontrar produtos adequados às suas características, a presença de profissionais que discutem essas questões também contribui para ampliar o debate sobre os significados sociais da beleza.
A representatividade precisa chegar às mãos de quem produz

O crescimento do mercado brasileiro de cosméticos e a ampliação das discussões sobre diversidade racial criaram novas possibilidades de representação. Marcas passaram a apresentar campanhas com maior variedade de tonalidades de pele, influenciadores negros conquistaram visibilidade e produtos direcionados a diferentes características ganharam espaço.
Essas transformações, entretanto, precisam ser observadas para além da publicidade.
Uma campanha protagonizada por pessoas negras pode representar um avanço na comunicação de determinada empresa, mas não garante que suas linhas de maquiagem contemplem adequadamente consumidores retintos. Da mesma forma, ampliar a cartela de bases não significa necessariamente oferecer preços acessíveis ou assegurar a disponibilidade dos produtos em diferentes regiões.
O desafio envolve toda a cadeia produtiva, desde a pesquisa e o desenvolvimento de fórmulas até a formação de profissionais, a distribuição comercial e a construção das campanhas publicitárias.
A experiência relatada por Fellipe evidencia que a representatividade também precisa estar presente na execução dos serviços. Um profissional que desconhece as particularidades das peles negras pode reproduzir padrões excludentes mesmo quando dispõe de produtos variados.
Por outro lado, uma atuação comprometida com a diversidade exige reconhecer que não existe uma única estética negra. Há diferenças de tonalidades, texturas, traços, preferências e maneiras de compreender a própria imagem.
Essa percepção atravessa a maneira como Fellipe descreve os aprendizados de sua carreira. Para ele, trabalhar diariamente com pessoas diferentes significa entrar em contato com universos particulares e compreender que a beleza não pode ser reduzida a um modelo.
“A beleza está em todos os lugares e até nos não lugares também. Até onde a gente acha que não existe beleza, ela também está presente, mas aos olhos de alguém.”
A afirmação encontra sentido em sua própria história. O menino que observava as mulheres da família em Salvador cresceu compreendendo a beleza como parte das relações humanas. O jornalista que encontrou na maquiagem uma forma de expressão passou a utilizar o rosto como espaço de criação. E o profissional que se incomodou com o embranquecimento da pele de uma mulher retinta construiu uma perspectiva de trabalho orientada pelo reconhecimento das diferenças.
Sua trajetória também demonstra que ampliar o acesso da população negra à beleza não significa apenas criar novos consumidores. Significa reconhecer profissionais negros como produtores de conhecimento, criadores de tendências e participantes legítimos das decisões que definem os rumos da indústria.
O desejo de encontrar a moda
Embora tenha conquistado novos espaços profissionais, Fellipe ainda identifica caminhos que deseja explorar. Entre eles está o universo da moda, área que acompanha com interesse e que considera uma possibilidade de expansão de sua atuação artística.
A aproximação não seria uma mudança radical de trajetória. Moda, comunicação e maquiagem compartilham a capacidade de produzir imagens, transmitir mensagens e expressar identidades. Nos editoriais, desfiles e campanhas, o trabalho dos maquiadores participa diretamente da construção das narrativas visuais apresentadas ao público.
Fellipe já cogitou estudar moda e deseja estabelecer uma relação mais próxima com esse mercado. “Chegar em um momento da minha carreira onde eu pudesse conciliar a moda, comunicação e a beleza, a maquiagem, seria o ideal para mim.”
O desejo também dialoga com discussões sobre a presença de profissionais negros nos bastidores da indústria criativa. Durante muito tempo, os debates sobre representatividade na moda se concentraram principalmente na presença de modelos negros nas passarelas e campanhas, embora a composição das equipes responsáveis por criar essas imagens também seja fundamental.
Maquiadores, cabeleireiros, fotógrafos, produtores de moda e diretores criativos participam das escolhas estéticas que chegam ao público. A diversidade nesses espaços pode ampliar repertórios e questionar referências historicamente estabelecidas.
Para Fellipe, a possibilidade de trabalhar com moda representa mais uma maneira de explorar a relação entre imagem e comunicação que acompanha sua vida desde a infância.
O sonho não aparece em seu relato como uma conquista já alcançada, mas como um projeto que passou a fazer sentido à medida que sua carreira se desenvolveu. Depois de descobrir a maquiagem durante um período de dificuldades pessoais e transformá-la em profissão, ele começou a reconhecer novas possibilidades de futuro.
Essa mudança de perspectiva talvez seja uma das dimensões mais importantes de sua trajetória. Fellipe não apresenta uma história construída a partir de um planejamento profissional rígido. Sua relação com a beleza foi sendo transformada pelas experiências, pelas pessoas que encontrou e pelas oportunidades que surgiram ao longo do caminho.
Um homem de axé, para além dos pincéis
Quando fala sobre quem é fora do ambiente profissional, Fellipe não recorre a títulos, números de seguidores ou conquistas de carreira. Prefere se definir a partir das relações que cultiva.
“Eu sou um homem simples, de verdade. Sou muito afetivo, sou uma pessoa que gosta muito de estar rodeada das pessoas que eu amo. E se eu não tiver nada, mas eu tiver isso, eu vou estar bem.”
A afetividade que reconhece em sua vida pessoal também aparece na maneira como compreende a maquiagem. Seu trabalho exige proximidade, escuta e atenção às expectativas de quem se senta diante dele. Cada atendimento oferece a possibilidade de conhecer uma história e interpretar artisticamente aquilo que a pessoa deseja expressar.
Essa relação entre técnica e sensibilidade não elimina as exigências profissionais da atividade, mas ajuda a explicar por que determinados encontros permanecem em sua memória.
A senhora de 90 anos, a amiga de sua mãe que o incentivou a realizar um dos primeiros atendimentos remunerados, as mulheres da família e a confiança de Cleydson Santana ocupam lugares diferentes em sua trajetória, mas compartilham uma característica. São relações humanas que contribuíram para transformar a maneira como Fellipe enxerga seu próprio trabalho.
A música, a arte e a natureza também fazem parte de sua vida. Ao falar sobre essas referências, ele utiliza uma expressão que sintetiza sua relação com o mundo.
“Sou um homem de axé. Eu vejo axé em tudo. Amo a natureza, amo axé, amo a vida. Amo o vigor de viver.”

A declaração aproxima o profissional que hoje trabalha com imagens daquele menino que cresceu observando cores e encontrando beleza na convivência familiar. Entre uma experiência e outra, a maquiagem deixou de ser apenas uma atividade que lhe proporcionava alívio durante a faculdade e passou a representar uma possibilidade de criação, trabalho e circulação por novos espaços.
Ainda assim, sua história não pode ser compreendida apenas como a de alguém que encontrou uma profissão e alcançou reconhecimento. Ela também oferece elementos para refletir sobre os critérios utilizados para definir o que é belo, quem participa dessas definições e quais pessoas tiveram suas características historicamente desconsideradas.
No mercado brasileiro de cosméticos, os números revelam uma indústria de grande dimensão econômica. As experiências de consumidores negros, entretanto, demonstram que crescimento e inclusão não são necessariamente processos equivalentes.
A transformação desse cenário depende de mudanças que ultrapassam a atuação individual de maquiadores. Exige investimento em pesquisa, diversidade nas equipes, formação técnica, distribuição de produtos e reconhecimento das diferentes estéticas presentes na sociedade brasileira.
Fellipe participa desse debate a partir de sua própria prática profissional, orientada pela atenção às particularidades de cada pessoa. Ao reconhecer a pluralidade como um dos maiores aprendizados de sua carreira, ele também questiona a existência de uma referência única capaz de representar todas as formas de beleza.
A lembrança daquela mulher negra retinta, cujo rosto foi embranquecido por uma maquiagem, continua sendo um ponto importante de sua história. Mas agora encontra outra imagem possível, a de uma mulher de 90 anos que confiou a ele sua primeira experiência com maquiagem e compartilhou, durante o atendimento, parte de suas memórias.
Entre as duas experiências existe uma diferença fundamental. Na primeira, a maquiagem desconsiderou a identidade de quem a recebia. Na segunda, abriu espaço para que uma história fosse ouvida.
Talvez seja nessa diferença que se encontre uma das contribuições mais importantes de Fellipe Palmeira para pensar a beleza. Seu trabalho parte da compreensão de que um rosto não precisa se aproximar de outro para ser valorizado. Precisa ser observado em suas próprias características, respeitado em suas particularidades e reconhecido como parte de uma diversidade que a indústria ainda está aprendendo a contemplar.
E, enquanto imagina os caminhos que poderão aproximá-lo da moda, Fellipe continua encontrando na maquiagem uma maneira de conhecer pessoas e ampliar seu próprio mundo, levando consigo as referências de Salvador, a formação em comunicação e os ensinamentos das mulheres que primeiro lhe mostraram a beleza de viver.