BREVE BIOGRAFIA DE AMÍLCAR CABRAL

             Filinto Elísio Correia e Silva (cabo-verdiano) é professor, consultor, poeta e editor

Numa lista feita pela BBC World Histories Magazine, em 2020, o africano Amílcar Cabral foi posicionado como o segundo maior líder da Humanidade, depois do considerado o maior líder de sempre Maharaja Ranjit Singh, fundador do Império Sikh, no século XIX, mais à frente de nomes como  Winston Churchill, Catarina, a Grande ou o Faraó Amenhotep III.

Apesar de grande notoriedade, Amílcar Cabral, cujos escritos estão agora submetidos ao projeto Memórias do Mundo da UNESCO, vivencia uma sutil tentativa de invisibilidade da sua figura que não só liderou um dos movimentos africanos mais bem-sucedidos contra a colonização portuguesa e marcou a autodeterminação dos povos do chamado Terceiro Mundo em plena Guerra Fria, como se afirmou como um dos grandes Humanistas, olhando para a Libertação como um ato cultural.

Nascido em Bafatá, cidade no centro leste da Guiné-Bissau, a 12 de Setembro de 1924, filho de pais cabo-verdianos, Amílcar Cabral cedo muda-se para Cabo Verde e, em sua juventude, faz estudos universitários em Portugal, formando-se em agronomia. 

Em primeira pessoa, Cabral assim se auto-definia: “Houve um tempo na minha vida em que eu estive convencido de que eu era português porque assim é que me ensinaram, eu era menino. Mas depois aprendi que não, porque o meu povo, a História de África, até a cor da minha pele…”.

Em Lisboa, Cabral frequenta a Casa dos Estudantes do Império (CEI) e o convívio entre africanos de diferentes colônias na metrópole despertou nele uma consciência crítica sobre as desigualdades sociais a que o sistema colonial os sujeitava e uma vontade de descobrir e valorizar as culturas dos povos colonizados. Assim, foi um dos criadores do Centro de Estudos Africanos que tinha por objetivo estudar as várias facetas da cultura africana, à semelhança do Movimento “Vamos Descobrir Angola” da “Geração Mensagem”. Este fato é referido pelo intelectual e nacionalista angolano Mário Pinto de Andrade:

 (…) Assim começamos a definir a nossa identidade de estudantes africanos, filhos da nossa terra, filhos do povo, que tinham tido a oportunidade, a “chance” de se infiltrar naqueles lugares vazios que deixava a administração colonial portuguesa para prosseguir os nossos estudos, para sermos os melhores alunos no liceu, e poder triunfar sobre o racismo (…) (ANDRADE 1973:6-8).

Cabral efetivamente defendeu que unidade entre os dois países permitiria uma melhor compreensão e análise sobre o sistema colonial que os dominava e, paralelamente, a elaboração de estratégias coletivas de luta contra o domínio português. 

Numa visita à capital guineense em 19 de Setembro de 1956, propõe a formação do Partido Africano da Independência (PAI), que esteve na gênese do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), uma organização de luta que se propunha libertar os dois povos do colonialismo português. 

A 23 de Janeiro de 1963, após uma série de propostas de conversações apresentadas ao Governo Português e através da ONU, desencadeia, a sul do território, a luta armada de libertação nacional.

Tornando-se um dos mais importantes líderes conhecedores dos ideais pan-africanistas, dos nacionalismos e das formas de consecução da independência, Cabral torna-se uma voz ativa na Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional (FRAIN) e na Conferência das Organizações Nacionalistas das Colônias Portuguesas (CONCP) que tiveram o objetivo de coordenar as lutas de libertação das colônias portuguesas. 

Com uma grande preparação teórica que era capaz de executar na prática, um grande domínio do discurso e da retórica capaz de mobilizar quem o ouvia, Cabral vai-se tornar no líder incontestado da luta de libertação nacional na Guiné-Bissau e em Cabo Verde.

Tomar a Luta de Libertação Nacional como um ato de cultura é, entre todos os pensamentos de Cabral, aquele que maior impacto teve. Cabral construiu um argumento forte de que a libertação nacional era simultaneamente um fato de cultura e um fator cultural, uma vez que acreditava que a resistência cultural era a mais efetiva forma de resistência: o valor da cultura como elemento de “resistência” ao domínio estrangeiro reside no fato de esta ser a manifestação da realidade material e histórica da sociedade a dominar”. 

Ao examinar-se a obra de Amílcar Cabral, depara-se, imediatamente, com uma personalidade extraordinária: um homem culto, humanista, prático, ativo e guerrilheiro, que escreve sobre poesia e educação. Na vasta obra escrita que deixou, ele desenvolveu reflexões sobre temas que tratam desde a luta pela independência até os que falam sobre a poesia produzida em Cabo Verde, como sobre a cultura e a educação como fundamentos da emancipação.

Foto Valéria Rodrigues