Civilizações negras ao sul do Saara: O império do Ghana (300-1075)

Marcos Antônio Cardoso – Militante do Movimento Negro, filósofo e mestre em História Social pela UFMG. Professor de cursos livres de introdução à História da África.

Com a ocupação do norte da África pelos árabes por volta do século VII, os impérios foram formados baseados na expansão da cultura do mundo árabe: imposição de uma verdade religiosa – o Islã, e a economia através do modo de produção árabe, gerando uma política de dominação. 

Ao contrário, na África ao sul do Saara ocorreu outro processo, inédito, em que os diversos povos africanos dos territórios circunvizinhos especializaram-se em funções produtivas como a agricultura, caça, pesca, pastoreio e metalurgia; e as etnias autóctones proprietárias da terra dividiam o governo político e militar com os grupos étnicos que chegavam, gerando uma política de cooperação. 

Foram muitos os reinos e os impérios na dinâmica civilizatória africana que se ergueram como construções político-sociais fundadas na cosmovisão africana. Entre eles, destacamos o Gana, o Mali e Songhai porque constituíram uma continuidade de resistência à dominação árabe na África Ocidental.  

Ghana é a primeira grande reação ao processo de islamização africana que se iniciou no séc. VII com a união de várias etnias para formar o império negro africano que aflorou apenas no séc. X. Surgiu num lugar privilegiado, ponto principal da travessia do Saara em direção ao Sul da África, cuja localização é estratégica para o controle de importantes rotas comerciais e que definem o comércio entre o Norte e o Sul do continente.  

Os Soninke eram o grupo étnico majoritário de Ghana que chamavam sua terra de Wagadugu ou Wagadu (país dos rebanhos). O nome Ghana é o título do rei que governava aquele império e significa o “Senhor do Ouro”. O Estado de Soninke era forte e seu rei controlava 200.000 soldados, 40.000 dos quais arqueiros que protegem as rotas de comércio de Ghana.

O poder do rei de Ghana provém do monopólio da enorme quantidade de ouro produzida em seu reino. Essa riqueza permitiu aos habitantes de Soninke construir e manter cidades, além da capital de Ghana, Kumbi Saleh, com população entre 15.000 e 20.000 habitantes. Os soninke também usaram sua riqueza para desenvolver outras atividades econômicas, tais como a tecelagem, a ferraria e a produção agrícola. 

A localização privilegiada na faixa do Sahel ofereceu as condições para o desenvolvimento da agricultura e do pastoreio como, por exemplo, a forte produção especializada de cereais. O Sahel, do árabe, significa “costa” ou “fronteira”, é uma faixa ecoclimática e biogeográfica de transição na África entre o Saara ao Norte e a savana sudanesa ao Sul, com 500 a 700 km de largura em média, e 5.400 km de extensão, entre o oceano Atlântico, a Oeste, e o mar Vermelho, a Leste, verdadeira rota transaariana de transporte de mercadorias via caravana de camelos pelo Saara. 

Os Ashanti, assim como os Fanti, são os grupos étnicos mais conhecidos do complexo cultural dos povos Akan que abrange diversos outros grupos localizados em Ghana, Costa do Marfim e Togo, na África Ocidental. Os ashanti ocupam a região centro sul do atual território de Gana e estão organizados numa confederação de estados, sendo que cada estado é dirigido por um chefe supremo, que por sua vez é subordinado ao rei (Ashantehene). 

O tráfico transatlântico de escravizados é responsável pela presença dos ashanti no Brasil. Verificamos isso por meio da autodenominação do terreiro Fanti-Ashanti lá e aqui. Sobretudo, destacamos a presença dos ashanti em Minas Gerais com a tecnologia africana na extração do ouro e engenharia de minas em Ouro Preto, Nova Lima e ou por meio dos ideogramas adinkra dos akãs encontrados no casario colonial de Ouro Preto. 


Foto de Lapping – Lara Banga Ghana Mesquita