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Elas seguram o tambor: como as mulheres do Congado mantêm viva a cultura ancestral graças à solidariedade da comunidade

Foto João FotógrafoOliveiraMG

Lideranças femininas revelam como fé, ancestralidade e doações sustentam tradições negras diante do apagamento histórico

Jaice Balduino – Jornalista, estrategista de conteúdo e comunicadora social. Trabalha com comunicação institucional, redes sociais e storytelling para projetos de impacto, cultura e economia solidária.

Conhecido popularmente como Congado, o Reinado é uma tradição afro-brasileira centenária que articula fé, memória, música e organização comunitária. Em Minas Gerais, essa manifestação atravessa gerações sustentada, sobretudo, pelo trabalho de mulheres negras que organizam, lideram, cozinham, rezam, financiam e mantêm viva uma cultura ancestral que resiste ao apagamento histórico.

Mais do que manifestação cultural, o Reinado é um modo de existência coletiva, nascido da reorganização das populações africanas e afrodescendentes durante e após o período da escravização. Em um contexto de violência, exclusão e perseguição religiosa, a tradição se consolidou como espaço de afirmação espiritual, política e comunitária. Minas Gerais se tornou um dos principais territórios dessa prática no país, reunindo centenas de guardas espalhadas por cidades do interior e da capital, com saberes transmitidos majoritariamente de forma oral e familiar, quase sempre pelas mulheres.

Dados da Pesquisa Doação Brasil 2024 indicam que, embora a cultura não figure entre os principais destinos formais das doações no país, a maioria das contribuições ocorre de maneira direta, comunitária e em pequenos valores. Essa lógica ajuda a compreender como manifestações culturais tradicionais, como o Reinado, seguem vivas mesmo fora dos circuitos institucionais de financiamento: sustentadas pela solidariedade cotidiana, pela proximidade popular e pelo trabalho coletivo.

Em Oliveira (MG), no Centro-Oeste do estado, o Reinado é mantido por mulheres que carregam décadas de história, fé e liderança. Pedrina de Lourdes, capitã e referência local, explica que sustentar a tradição exige muito mais do que devoção. “O Reinado é a minha vida. Mas também é responsabilidade. A gente cuida da roupa, da comida, dos instrumentos, das pessoas. Nada disso acontece sem esforço coletivo”, afirma.

Pedrina destaca que, historicamente, o trabalho das mulheres foi invisibilizado, mesmo sendo elas as responsáveis pela organização cotidiana das guardas e dos festejos. “Durante muito tempo, a mulher não podia aparecer, mas sempre esteve fazendo tudo. Hoje a gente ocupa os espaços, mas ainda precisa lutar por reconhecimento”, diz.

Já Ana Luzia, também liderança do Reinado em Oliveira, reforça o caráter ancestral e espiritual da tradição. Para ela, o Reinado não é folclore, nem apresentação cultural isolada. “O Reinado é vida, é herança. Ele vai para a rua porque precisa ser visto, precisa existir no espaço público. É ali que nossa fé se manifesta”, explica. Ana também destaca o simbolismo das coroas e dos rituais, que unem referências africanas e católicas como estratégia histórica de sobrevivência cultural.

Custos, desafios e o papel da solidariedade

Manter o Reinado vivo exige recursos concretos. Alimentação durante vários dias de festa, transporte de pessoas e instrumentos, confecção e manutenção das vestimentas, cuidados com os espaços de guarda e ensaio: tudo isso tem custo. No entanto, o acesso a políticas públicas culturais é irregular e insuficiente, especialmente para grupos tradicionais localizados fora dos grandes centros.

No Brasil, a cultura de doação se manifesta majoritariamente em pequenas contribuições, feitas de forma recorrente e comunitária. Essa lógica se traduz, no Reinado em alimentos compartilhados, dinheiro arrecadado entre famílias, trabalho voluntário e apoio logístico, práticas que garantem a continuidade da tradição mesmo sem financiamento formal. Promessas feitas aos santos ocupam um lugar central nessa dinâmica de sustentação. Além das contribuições financeiras e das doações de alimentos, o cumprimento de promessas, individuais ou coletivas, mobiliza famílias inteiras em torno da realização das festas e dos rituais. “Quando o dinheiro não vem, a comunidade se vira. Cada um ajuda como pode”, relata Pedrina.

As entrevistadas são unânimes ao afirmar que, sem esse apoio coletivo, muitas guardas já teriam deixado de existir. A falta de recursos não ameaça apenas eventos pontuais, mas coloca em risco a transmissão de saberes ancestrais, acumulados ao longo de séculos.

Na capital mineira, o Reinado também se sustenta graças à atuação de mulheres. Uma das principais referências é Isabel Casimira, Rainha Conga, liderança histórica do Reinado em Minas Gerais e figura central na preservação da cultura afro-brasileira na região metropolitana de Belo Horizonte.

Coroada ainda bebê, Isabel carrega uma linhagem matriarcal que atravessa gerações. Sua trajetória é marcada pela luta pelo reconhecimento do Reinado como prática religiosa legítima, pela defesa da liberdade de culto e pela formação de educadores e pesquisadores. Ao longo de décadas, Isabel atuou para garantir que as guardas ocupassem o espaço urbano, dialogassem com escolas e instituições e fossem reconhecidas como expressão política e espiritual do povo negro.

Outra voz importante na capital é Neli Martins, que reforça o papel das mulheres como guardiãs da oralidade, da cozinha ritual, das rezas e da organização comunitária. Para ela, o Reinado só sobrevive porque as mulheres sustentam seus alicerces simbólicos e materiais. “Quando uma mulher para, muita coisa para junto”, resume.

Além da força comunitária, a preservação do Reinado também passa pelo papel dos espaços culturais negros, que atuam como territórios de acolhimento, memória e formação. Em Belo Horizonte, o Casarão das Artes Negras cumpre uma função estratégica ao promover debates, encontros, atividades artísticas e ações educativas que valorizam manifestações afro-brasileiras e fortalecem redes de solidariedade entre artistas, lideranças e comunidades tradicionais.

Esses espaços ampliam a visibilidade do Reinado, ajudam a combater estigmas religiosos e contribuem para que a cultura negra seja reconhecida como parte fundamental da identidade brasileira.

Do Reinado ao Tambor de Mina: ancestralidade que atravessa o país

A força feminina que sustenta o Reinado em Minas Gerais dialoga com outras tradições afro-brasileiras espalhadas pelo país. No Maranhão, o Tambor de Mina representa um dos mais importantes sistemas religiosos de matriz africana do Brasil, também mantido majoritariamente por mulheres.

A recente morte de Mãe Elzita, uma das principais lideranças maranhenses, aos 91 anos, simboliza não apenas uma perda, mas um alerta. Assim como no Reinado mineiro, são mulheres idosas, sábias e profundamente conectadas à ancestralidade que garantem a continuidade dessas tradições. Sua partida reforça a urgência de reconhecer, apoiar e financiar as práticas culturais afro-brasileiras enquanto elas ainda pulsam.

“Segurar o tambor”, como dizem as mulheres do Reinado, é mais do que manter o ritmo de uma festa. É sustentar uma memória coletiva, proteger saberes ancestrais e afirmar a existência negra em um país marcado pelo apagamento histórico. Sem solidariedade, doações e reconhecimento institucional, o som que ecoa há séculos corre o risco de silenciar.

A sobrevivência do Reinado, assim como do Tambor de Mina e de tantas outras tradições afro-brasileiras, depende do compromisso coletivo em valorizar quem, há gerações, segura o tambor para que a história continue sendo contada. Porque segurar o tambor é segurar a memória.

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Jaice Balduino

Jornalista, estrategista de conteúdo e comunicadora social. Profissional de comunicação e estratégia, atua com posicionamento, produção de conteúdo e fortalecimento de marcas e iniciativas de impacto social.

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