Ensaio > Mudança nos antropónimos ambundu na identidade cultural: Caso da população da Província de Icolo e Bengo

Mudança nos antropónimos ambundu na identidade cultural: Caso da população da Província de Icolo e Bengo

                                               Isaías de Lemos, professor e antropólogo angolano. Mestrando em Ciência Política e Administração Pública.Vice-presidente da A.BANTU- Associação Angolana de Antropólogos.

Foto wjgomes

O presente estudo tem como propósito analisar os efeitos da mudança nos antropônimos ambundu na identidade cultural na província de Icolo e Bengo, e pretende-se compreender a cultura do grupo etnolinguístico através dos nomes, identificar e analisar os seus significados, tendo a preocupação de saber porquê a sociedade angolana, no geral e em particular a juventude da região em estudo, contestam quando da atribuição de nomes de origem Bantu, e qual é a importância cultural da antroponímia ambundu.

Para a pesquisa, utilizou-se o método etnográfico, comparativo e histórico e as técnicas de observação directa, participativa onde se procedeu  as entrevistas, consultas aos sobas, sobetas, regedores, trabalhadores das instituições estatais e à população. Fez-se recurso à tradição oral enquanto fonte privilegiada da qual extraíram-se muitos subsídios.

Comparamos alguns nomes e suas formas de escrita, qualidade vocálica e da nasal silábica. A reflexão sobre a antroponímia Bantu mostra que permite a conservação de identidade cultural de um indivíduo em relação ao seu grupo de pertença, ao passo que a rejeição dos mesmos deve-se a factores como a assimilação cultural decorrente do processo de colonização, o desinteresse na adopção desses nomes e a má compreensão da globalização.

Palavras-chave: Ambundu, antroponímia, iIcolo e Bengo, identiddade cultural, nomes Bantu.

 INTRODUÇÃO

 Os nomes africanos são identidade de um povo e têm criado admiração por algumas pessoas no mundo. Os seus significados impactam na vida de qualquer cidadão africano já que derivam dos antepassados e são impostos de acordo com as ocorrências vividas pelo indivíduo, família ou pela comunidade baseados nas matrizes culturais Bantu e Pré-Bantu. O africano no acto de atribuição de um nome a alguém, acredita que os espíritos dos seus antepassados orientam-no na sua escolha.

 A   cultura, sendo uma herança de ordem material de uma determinada sociedade, nesta temática relacionada à opinião na mudança dos antropônimos, foi alvo de alguns estudos relacionados que, segundo Demartis, (professora universitária de Ciências Sociais), faz menção de três tipos culturais que constituem uma sociedade a saber: 

– Valores, normas, definições, linguagens, símbolos signos, modelo de comportamento, técnicas mentais e corporais desempenhando uma função cognitiva, afectiva, valorativa, expressiva, regulativa e manipulativa; 

– As objectivações, os suportes, os valores materiais ou corporais dos mesmos; 

– Os meios materiais para a produção e a reprodução social do homem. (DEMARTIS; 1999: 258).  Os nomes obtêm um dos elementos fundamentais de identificação da pessoa humana, elucida o ser e o estar do individuo na comunidade  por onde se descobre o seu interior espiritual por meio dos seus antepassados, permitindo-lhes reconhecê-los a partir das suas origens e afinidades  na sociedade onde estiver inserido. Os nomes permanecem unidos sendo de  uma eficácia fundamental na participação directa do grupo étnico linguístico. Nessa abordagem, vimos que o Padre Altuna, (Missionário Diocenas Vascongadas-Espanha) corrobora da mesma visão ao dizer que «O nome como parte constitutiva completa a pessoa, pois o nome explica a natureza própria do ser individual, mostra a sua realidade e descobre a sua interioridade. É um distintivo que segue a alma espiritual».(ALTUNA; 2006: 268, 269).

Seguindo o mesmo pensamento, notamos que o mesmo não se demarca de abordar a condição situacional da gênesis condizente à proximidade das relações entre os semelhantes da mesma comunidade etnolinguística, quer seja no meio rural, periourbano e urbano. Por isso, não foi por casualidade que, na sua visão esclarece que «O nome situa o homem na comunidade, é a denominação que permite reconhecê-lo, o sinal da sua situação, da sua origem, da sua actividade, das suas relações com os outros». (ALTUNA; 2006: 268, 269).

Quando do nascimento de uma criança em qualquer sociedade angolana, as comunidades invocam a presença dos seus ancestrais de forma espiritual e eles terão deixado boas referências na família e na comunidade no geral.Também em certas ocasiões do nascimento, atribuem determinados  nomes em função das circunstâncias que a família ou a sociedade vivencia; assim como o tempo, as calamidades naturais, a fome, a abundância (na caça,na pesca e na agricultura), uma visita ilustre ou um parto invulgar e até a circunstância  de morte de um ente. 

Em África, os nomes são de total diferença devido às suas matrizes culturais, nas sociedades atuais africanas, quando ouvimos algum nome, logo se distingue a genealogia do indivíduo que adopta o nome. Por este facto, Alexandre, (Ms. em História, Faculdade de Ciências Sociais-FCS, da Universidade Agostinho Neto-UAN), diz-nos que 

 Em África, nota-se que, não é por caso, ou por belo prazer de adoptar este ou aquele nome que o africano dá a alguém ou em algum sítio um determinado nome, em geral reflete, ou melhor, está, na maior parte das vezes, ligado a um acontecimento histórico concreto, ou a uma determinada circunstância histórica vivida; seja pelo próprio indivíduo ou família, seja pela comunidade ou sociedade em geral. ALEXANDRE, 2009:43). 

O autor remete-nos a um modelo de forma meditária, alusiva à sua terra natal; como exemplo, do grupo gemelar (Nsimba e Nzuzi), no caso concreto da região de Mbembe de onde é natural o qual, faz-nos uma chamada de atenção que na atribuição de nomes angolanos e africanos, no geral, não se deve atribuir os nomes de gêmeos a pessoas que não são nascidos nessa condição.

        Conclusão

Depois de uma exaustiva abordagem, concluímos que os efeitos da mudança nos antropônimos ambundu na identidade cultural na Província de Icolo e Bengo, remete-nos  à uma análise social com intuito de compreender a cultura do grupo etnolinguístico Ambundu através dos nomes.

      – Será que no grupo étnico ambundu existe conversão dos seus antropônimos? 

      – Será que mantiveram-se íntegros no que se refere aos seus anomásticos?

Observamos isso com maior predominância no grupo Ambundu na mudança dos seus antropônimos, ao contrário de outros grupos que se mantiveram íntegros, tais como os Bakongo, os Tucokwe,  os Ovimbundu, Ocikwanyama etc. A razão se baseia na alienação cultural, como consequência da colonização portuguesa, a influência de línguas  estrangeiras como requisito para emprego, o mau escólio da globalização, e também alicerça a falta de noção em uma boa parte da comunidade e renúncia por parte de alguns.

 Os nomes contribuem como elemento de construção da identidade sociocultural através dos seus significados nas sociedades contemporâneas; ao ouvirmos a chamar por alguém caracterizamos logo a origem do indivíduo, embora actualmente os nomes têm sido banalizados, estigmatizados e, por vezes, servindo de achincalhação, assim eles acabam por ser a cultura interior de cada etnia.

BIBLIOGRAFIA

1-ALEXANDRE, João, “Manual de Reflexão Sobre uso de Palavras e Nomes Africanos”, F.L.C.S, vl. I, 1ª Edição, Luanda, 2009. 

2-DEMARTIS, lucia, “Compêndio de Sociologia”, Lisboa, Edição 70, Lda, 1999.

3-Pe. ALTUNA, Raul Ruiz de Asúa, “Cultura Tradicional Bantu”, Astipol- Artes tipográficas; Águeda Portugal, 2006. 

Essa postagem foi possível graças a um dos nossos parceiros:​

Rosalia Diogo

Jornalista, professora, curadora do Casarão das Artes Negras, chefe de redação da Revista Canjerê, Dra em Literatura, Pós-doutora em Antropologia.

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