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Quilombo Aéreo: iniciativa busca ampliar presença negra na aviação brasileira

Naiara Rodrigues é jornalista formada pela UFMG e assessora de imprensa no setor cultural, co-autora do livro “Diário de Bloco” sobre o carnaval de rua de Belo Horizonte

Apesar de mais da metade da população brasileira se autodeclarar negra ou parda, segundo dados do IBGE (2023), essa maioria ainda não se reflete nos céus do país. Um levantamento do Coletivo Quilombo Aéreo aponta que apenas cerca de 2% a 3% dos pilotos comerciais ativos no Brasil são negros. Entre comissários(as), a presença é um pouco maior, mas ainda limitada, variando entre 5% e 8%. Os números evidenciam um cenário de desigualdade racial em um dos setores mais estratégicos e simbólicos do mercado de trabalho.

É nesse contexto que surge o Quilombo Aéreo, uma iniciativa formada por tripulantes negros que atua para mitigar os efeitos do racismo na aviação civil brasileira. Mais do que um coletivo, o projeto se estrutura como uma escola de aviação afrocentrada, com o objetivo de formar novos profissionais e ampliar a representatividade no setor.

Desde sua criação, em 2019, o Quilombo Aéreo já impactou mais de mil pessoas em todo o Brasil. O alcance vai além da formação técnica, envolvendo também familiares dos alunos, profissionais já inseridos no setor e ações sociais em diferentes contextos. “O impacto não é só na formação, mas no acompanhamento dessas pessoas dentro e fora do mercado de trabalho”, explica Laiara Morin, cofundadora da iniciativa. 

Embora os dados iniciais sobre a baixa presença de pessoas negras na aviação tenham sido fundamentais para provocar o setor, Laiara afirma que o cenário começa a apresentar mudanças, ainda que lentas. “Nossa pesquisa cumpriu o papel de tensionar o mercado e fazer com que as empresas olhassem para essa disparidade”, afirma. Segundo ela, hoje já é mais comum ver mais de uma pessoa negra em uma mesma tripulação — algo raro há poucos anos. Apesar disso, a falta de transparência das companhias ainda dificulta a atualização dos números. “As empresas começaram a fazer o recorte racial, mas esses dados ainda não são amplamente divulgados.”.

A atuação do Quilombo Aéreo se estrutura a partir de três frentes principais: pesquisa, formação e empregabilidade. A escolha desses pilares nasceu da escuta e da vivência dentro do setor. “Identificamos que os principais obstáculos eram o acesso à informação e o alto custo da formação”, explica Laiara. A partir disso, o grupo passou a investir em bolsas de estudo e no acompanhamento próximo dos alunos até sua inserção no mercado. A proposta é criar um ciclo contínuo de formação: após se estabelecerem profissionalmente, os egressos são incentivados a contribuir para a formação de novos alunos, fortalecendo a lógica coletiva do projeto.

Entre as principais iniciativas está o projeto “Pretos que Voam”, que oferece bolsas integrais para a formação de comissários de voo. A proposta, inédita no setor, já apresenta resultados: parte dos alunos formados integra hoje equipes das principais companhias aéreas do país.

Para as fundadoras, o objetivo é claro: transformar o perfil da aviação brasileira e garantir que mais pessoas negras ocupem espaços historicamente negados a elas. 

Os avanços também se refletem na inserção profissional dos alunos formados pelo projeto. Na primeira turma, a maioria já está empregada no setor aéreo, restando apenas três pessoas fora do mercado — duas delas mulheres mães solo. “Esse dado fala por si só”, pontua Laiara, ao destacar os desafios adicionais enfrentados por mulheres na aviação. Segundo ela, ainda há preconceitos estruturais que dificultam a contratação de mães, mesmo que a maternidade não impeça o exercício da profissão. “É uma pauta que seguimos enfrentando e trazendo para o debate.”.

Entre os próximos passos, o Quilombo Aéreo busca ampliar o acesso à formação e consolidar sua atuação no setor. Uma das metas é oferecer bolsas para a formação de pilotos, especialmente para mulheres negras — grupo ainda mais sub-representado na aviação. “Nosso sonho é possibilitar que mais pessoas negras ocupem todos os espaços da aviação, inclusive a cabine de comando”, afirma Laiara, que destaca que é uma formação com um custo muito alto, principalmente por exigir horas de voo. Para isso, o projeto segue em busca de parcerias e apoio institucional que viabilizem a expansão das iniciativas.

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Sandra Nandaka

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