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Mulheres do Norte transformam saberes ancestrais em renda e desenvolvimento

Da economia criativa à formação profissional, negócios liderados por mulheres amazônicas demonstram que ancestralidade, inovação e impacto social podem caminhar juntos.

Em um ateliê em Iranduba, município da região metropolitana de Manaus, uma boneca de cabelos escuros e traços amazônidas ajuda a curar uma ferida antiga. Chamada Flor de Tucumã, ela nasceu da memória de uma menina que cresceu sem encontrar, nas prateleiras uma boneca que se parecesse com ela.

Décadas depois, essa menina se tornou Vanda Amaral, artesã e empreendedora. E a boneca criada a partir de suas lembranças de infância transformou-se em um negócio que gera renda, movimenta a economia criativa e fortalece a identidade de mulheres da Amazônia.

“A Flor de Tucumã curou uma dor muito intensa que existia dentro de mim, daquela criança que não se via representada. E percebi que essa não era apenas uma dor minha, mas de muitas mulheres amazônidas”, conta a artesâ.

Foto: Bonecas de Pano | Vanda Amaral

A história de Vanda não é um caso isolado. Em diferentes territórios da Região Norte, mulheres estão transformando conhecimentos ancestrais, experiências comunitárias e identidade cultural em iniciativas econômicas capazes de gerar renda, emprego e impacto social.

É o caso também de Rosângela Menezes, fundadora da Awalê, organização criada em meio à pandemia para apoiar mulheres negras que haviam perdido seus empregos. O que começou como uma iniciativa de formação profissional evoluiu para uma agência e uma comunidade de aprendizagem que conecta educação, empregabilidade e empreendedorismo.

“O impacto da Awalê não está apenas nas oportunidades que criamos diretamente, mas na capacidade de conectar pessoas, fortalecer redes de apoio e fazer com que conhecimento, oportunidades e prosperidade circulem entre quem caminha conosco”, afirma.

Mulheres avançam nos negócios, mas desafios persistem

O empreendedorismo feminino vive um momento de crescimento no Brasil. Segundo levantamento do Sebrae, com base em dados da Receita Federal, mais de 2 milhões de micro e pequenas empresas lideradas por mulheres foram abertas em 2025, um recorde histórico. Elas representaram cerca de 42% de todos os novos pequenos negócios formalizados no país.

Outro estudo do Sebrae aponta que o empreendedorismo feminino cresceu 27% nos últimos dez anos, alcançando o maior patamar da série histórica.

Mas os números não eliminam as desigualdades. Para Rosângela, um dos principais obstáculos continua sendo o acesso a crédito e a recursos financeiros. “Quando precisei estruturar a operação da empresa, bati à porta de vários bancos para conseguir um cartão de crédito. Foi uma verdadeira odisseia, mesmo apresentando um faturamento expressivo para um negócio em crescimento”, relata.

Foto: Rosâgela Menezes – Fundadora e Diretora Executiva Awalé

Ela acredita que o desafio não está na capacidade das mulheres negras e indígenas de empreender, mas nas condições disponíveis para que seus negócios prosperem. “Acredito que precisamos falar menos sobre inclusão e mais sobre redistribuição de oportunidades. Isso significa garantir que mulheres negras e indígenas tenham acesso à capacitação, mas também a clientes, contratos, crédito, tecnologia, mercados e espaços de liderança. Quando essas condições coexistem, o talento e a capacidade de realização já estão presentes”, reforça.

Quando inovação nasce da comunidade

Embora inovação ainda seja frequentemente associada à tecnologia, Rosângela propõe uma definição diferente. Para ela, inovação também nasce da colaboração, prática presente há gerações em comunidades negras, indígenas e periféricas. Como exemplo, cita o Festival de Parintins, onde centenas de profissionais atuam coletivamente para construir os espetáculos dos bois-bumbás.

“A diversidade é importante, mas a inovação nasce da colaboração. E a colaboração é um saber ancestral presente em muitos dos territórios e comunidades dos quais fazemos parte.”

Na Bonecaria da Amazônia, a inovação aparece em outra forma: transformar identidade cultural em produto. Criada em 2023 como parte de um projeto de especialização em Negócios da Floresta, a Flor de Tucumã tornou-se um símbolo da representação amazônica. Hoje, o empreendimento comercializa bonecas, oferece cursos, participa de feiras e contrata trabalhadores locais para atender às encomendas.

“O meu ateliê não abençoa apenas a minha vida. Ele movimenta a vida de outras pessoas também”, afirma Vanda. 

Se há algo que une as trajetórias de Rosângela e Vanda, é o fato de que seus negócios nasceram em momentos de crise. A Awalê surgiu durante a pandemia, diante do desemprego que atingiu mulheres negras. A Bonecaria da Amazônia nasceu quando Vanda enfrentava a depressão, o adoecimento da mãe e a necessidade de reconstruir sua vida profissional.

Nenhuma das duas começou empreendendo por glamour. Em ambos os casos, o empreendedorismo surgiu como uma alternativa para gerar renda, ampliar oportunidades e construir caminhos de autonomia. Mais do que negócios, as iniciativas se consolidaram como instrumentos de transformação social, fortalecimento comunitário e valorização de identidades historicamente invisibilizadas.

Hoje, enquanto uma fortalece redes de formação e empregabilidade para mulheres negras e indígenas, e a outra transforma memórias amazônicas em produtos que circulam pelo país, ambas ajudam a ampliar a presença de mulheres do Norte em um ecossistema econômico historicamente concentrado em outras regiões.

E mostram que, na Amazônia, empreender também pode ser um ato de memória, pertencimento e transformação coletiva.

Foto: Bonecas de Pano | Vanda Amaral

Conheça mais: 

Bonecaria da Amazônia: Bonecas de Pano | Vanda Amaral

Awalé: Capacitação e conexão para talentos negros e indígenas no mercado digital

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Jaice Balduino

Jornalista, estrategista de conteúdo e comunicadora social. Profissional de comunicação e estratégia, atua com posicionamento, produção de conteúdo e fortalecimento de marcas e iniciativas de impacto social.

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