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Uma viagem a Cabo Verde e o reencontro com a ancestralidade

Por Rosália Diogo

Nas últimas semanas, Cabo Verde ganhou destaque nos noticiários esportivos por sua campanha na Copa do Mundo e pelo emocionante confronto contra a Argentina. Para muitas pessoas, esse pequeno arquipélago africano foi descoberto por meio do futebol. Mas a verdade é que Cabo Verde oferece muito mais do que bons jogadores e partidas memoráveis.

Em abril deste ano, tive a oportunidade de conhecer o país, sendo o sétimo do continente africano que visitei e uma experiência que reafirmou algo que carrego comigo há muitos anos: conhecer a África é ampliar nossa compreensão sobre nós mesmos.

Quando pensamos em Cabo Verde, é importante lembrar que estamos falando de um arquipélago formado por dez ilhas vulcânicas, localizado no Oceano Atlântico, a cerca de 600 quilômetros da costa da África Ocidental. Com pouco mais de 600 mil habitantes, o país conquistou sua independência de Portugal em 5 de julho de 1975, tornando-se uma das nações africanas de língua portuguesa.

Essa herança histórica faz com que brasileiros encontrem inúmeras familiaridades ao chegar ao país. O português é a língua oficial, mas o dia a dia acontece em crioulo cabo-verdiano, um idioma que preserva influências africanas e portuguesas e que revela, em sua própria sonoridade, a riqueza dos encontros culturais que marcaram a formação do arquipélago.

Logo nos primeiros dias em Praia, a capital, percebi que a cultura está presente em todos os espaços. Nas ruas, na música, na culinária, na forma de receber quem chega e, principalmente, na arte.

Foi ali que conheci a Rua da Arte e o artista Tutu Sousa. Seu ateliê e galeria reúnem pinturas, esculturas e diferentes linguagens visuais que narram histórias do povo cabo-verdiano. Mais do que apreciar obras, visitar aquele espaço foi compreender como a arte se torna uma ferramenta de educação, preservação da memória e fortalecimento da identidade de um povo.

Essa é uma das maiores lições que levo de Cabo Verde: educação não acontece apenas dentro das escolas. Ela também está nos territórios, nas manifestações culturais, nas conversas e nos encontros que nos permitem compreender outras formas de viver e interpretar o mundo.

Essa percepção também aparece na culinária. O prato mais conhecido do país, a cachupa, reúne milho, feijão, legumes e diferentes tipos de carne ou peixe em uma receita preparada lentamente, passada entre gerações e compartilhada à mesa. Assim como a feijoada ou tantos pratos tradicionais brasileiros, ela revela que cozinhar também é preservar memória, identidade e afeto.

A música segue o mesmo caminho. Cabo Verde é reconhecido internacionalmente pela morna, gênero eternizado por Cesária Évora, cuja voz levou ao mundo sentimentos de saudade, pertencimento e resistência. Ao lado da coladeira, do funaná e de outros ritmos, a música cabo-verdiana demonstra como as expressões culturais ultrapassam fronteiras e aproximam povos separados pelo oceano.

As paisagens também contam histórias. O azul intenso do Atlântico, as montanhas de origem vulcânica, o clima tropical e a convivência constante com o mar despertam uma sensação familiar para quem vem do Brasil. Há diferenças, evidentemente, mas também existem muitos pontos de encontro construídos por séculos de circulação de pessoas, culturas e saberes entre África e América do Sul.

Essas conexões ajudam a compreender por que Cabo Verde ocupa um lugar tão importante na história da diáspora africana. Ao longo dos séculos, o arquipélago tornou-se ponto estratégico das rotas atlânticas e testemunhou deslocamentos, resistências e encontros que deixaram marcas profundas na formação de diversos países, inclusive do Brasil.

Talvez por isso a visita tenha provocado em mim uma sensação difícil de explicar. Não era apenas conhecer um novo país. Era revisitar caminhos que, de alguma forma, também ajudam a explicar quem somos.

Quando vejo Cabo Verde ganhar visibilidade por causa do futebol, fico feliz. O esporte tem esse poder de aproximar pessoas e despertar curiosidade sobre lugares antes pouco conhecidos. Mas espero que essa curiosidade não termine quando o apito final soar.

Que ela nos leve a conhecer a literatura cabo-verdiana, sua música, seus artistas, sua gastronomia, sua história de independência e sua contribuição para a construção do pensamento africano contemporâneo.

Porque cada país africano possui uma trajetória singular. Não existe uma única África. Existem muitas Áfricas, com histórias, línguas, tradições e formas de produzir conhecimento próprias.

Viajar pelo continente africano tem sido, para mim, um exercício permanente de aprendizagem. Cada território visitado amplia meu repertório como pesquisadora, jornalista e educadora. Cada encontro fortalece a convicção de que produzir conhecimento sobre a África exige presença, escuta e respeito.

Se o futebol fez o mundo olhar para Cabo Verde, que a cultura nos ensine a permanecer olhando. É nesse encontro entre esporte, história, arte e educação que descobrimos não apenas um país extraordinário, mas também novas formas de compreender o Brasil e a nós mesmos.

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Editorial Revista Canjerê

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Naiara é colunista e colaboradora editorial da Revista Canjerê
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