A influência e importância da cultura Bantu em Minas Gerais

Por Marcos Antônio Cardoso

Militante do Movimento Negro, filósofo e mestre em História Social pela UFMG.
Professor de cursos livres de introdução à História da África
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Há um corpo de 2.000 línguas da África subsaariana estudadas por Bleck em 1862 e concluiu-se que em todas elas, a palavra que designa gente é muNTU (ser humano); baNTU é o plural (seres humanos).  Sabemos que as pessoas que falavam as línguas protobanto há pelo menos 3.000 anos antes da era cristã, migraram e dispersaram para a costa do Oceano Índico, para a África Central (Kongo/Angola) e o para o sul do continente. Os bantus criavam gado, conheciam a metalurgia do ferro, utilizavam embarcações que cruzavam os grandes rios da floresta equatorial, eram pescadores e agricultores que fundiram a enxada (metal).

Este conjunto de povos que habita a África Central como Angola, kongo, Gabão, Moçambique, África do Sul, Quênia, Tanzânia etc, apesar das diferenças étnicas, compartilham o mesmo tronco linguístico. Essa base comum permitiu que muitos traços culturais e significados religiosos fundamentais fossem compartilhados entre os diferentes grupos étnicos e, embora apresentassem uma grande diversidade cultural, é possível detectar em todos eles a presença de uma única cosmologia centro-africana, espécie de substrato comum e base a partir da qual se fundamentava a diversidade de suas experiências religiosas.

O candomblé de Nação Kongo/Angola

O Candomblé de Nação encerra dentro de si grandes troncos culturais e ritualísticos relacionados às principais etnias e povos transplantados trazidos como escravizados para o Brasil: a bantu, a sudanesa nagô e a sudanesa jeje. O termo nação associado ao nome da religião foi adotado pelos seus adeptos com o objetivo de distinguir a forma de culto das divindades associado à etnia africana da qual descenderiam. 

A grande maioria dos bantu dos candomblés é formada pelas nações Angola, Congo e Muxicongo, cuja principal diferença reside na língua de origem banto utilizada nos rituais. Apesar dessa diferença na língua, existe uma grande semelhança entre os rituais, o que faz com que atualmente sejam todas as nações fundidas na Nação Angola e que cultuam o deus supremo Nzambi, Nzambi Mpungu, Anganga Nzambi, Zambiapongo e a natureza deificada, personificada nas divindades chamadas Inquices/Nkisses.  Os fundamentos dos Candomblés de Nação Angola são baseados nas histórias, lendas e narrativas míticas acerca dos Inquices e são passados oralmente pelos sacerdotes da religião: Tata Nkisi (masculino) ou Mametu Nkisi (feminino).

O samba, a matriz fundadora da musicalidade brasileira?

O violino, o oboé, o acordeão, o apito, o clarim de uso militar são instrumentos musicais presentes na Africa Ocidental na região de Camarões, Mali e Nigéria e influenciaram áreas dos clãs linguísticos Bantu, conforme Kazadi wa Mukuna na sua obra “Contribuição Bantu na Música Popular Brasileira”. Porém, o mais importante é a continuidade cultural bantu no Brasil por meio da organização dos padrões rítmicos e da persistência dos instrumentos musicais essenciais na base constitutiva da musicalidade brasileira, o Ngoma, os “tambores falantes” da África e o Samba, no Brasil.  
Entre os instrumentos musicais da cultura Bantu, como o idiofone mbira, presentes na música brasileira, destaco o agogô tocado em toda a África Bantu, e que aqui no Brasil é utilizado na liturgia ritual do Candomblé e na orquestração rítmica das escolas de samba. Da mesma forma, o tambor de fricção, a Cuíca, muito conhecida dos bakubas, bakongos, yakas, lundas, quiocos e umbundos de Angola e incorporados às cerimônias africanas de iniciação. Enfim, sublinho a importância do mbulumumba, o Berimbau, originário de Angola, base da nossa Capoeira, o lunkomba, arco musical e o chocalho de cesto – caxixi – do povo luba no Kongo.

Foto de Eryxson fonseca