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FAN- 13º Festival de Arte Negra – 2025/2026

30 anos em movimento: rotas, ancestralidade e futuro

FAN ESPIRALAR

Fredda  Amorim

Mestra em Artes Cênicas UFOP, doutoranda em Artes Cênicas – UDESC. Showme Produçoes Artisticas e Comunicaçao LTDA. Instituto Periférico – Coordenação de produção FAN 2025.quesaidapele@gmail.com

Tempo espiralar e cosmovisão afrocentrada

A edição comemorativa de 30 anos do FAN BH parte do conceito de tempo espiralar, formulado pela filósofa, dramaturga e ensaísta Leda Maria Martins, que propõe uma leitura do tempo como movimento circular, não-linear e dinâmico. Em sua obra A cena em sombras (1995), Martins afirma que o tempo espiralar “não progride, ele se curva, retorna e se redimensiona”, convocando uma percepção que transcende a linearidade histórica ocidental e reinscreve o corpo negro como portador de uma temporalidade própria, diaspórica e ritualística.

Essa noção de tempo, que se articula ao princípio filosófico africano de Sankofa “voltar para buscar o que ficou para trás” —, estrutura o pensamento curatorial do FAN ESPIRALAR 2025, conferindo-lhe caráter de rito coletivo de rememoração e invenção. Ao compreender o tempo como espiral, o festival cria condições para que passado, presente e futuro coexistam em um mesmo gesto artístico e político, evidenciando a memória como potência criadora e o território como arquivo vivo de ancestralidade.

Espiralar e criar rotas: cidade, corpo e memória

A proposta curatorial do FAN BH 2025 conjuga dois conceitos estruturantes — espiralar e rotas — como chaves de leitura para a cidade de Belo Horizonte e para a própria trajetória do festival. “Espiralar” indica o movimento de retorno e projeção, a constante dobra entre o que já foi e o que ainda pode ser. “Rota”, por sua vez, designa os caminhos de deslocamento, encontro e reterritorialização dos saberes e corpos negros na cidade.

As rotas propostas pelo festival não se limitam a circuitos físicos de circulação artística, são também percursos simbólicos e espirituais que atravessam territórios de memória e resistência, como o Largo do Rosário, o Quilombo Manzo Ngunzo Kaiango, o Muquifu (Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos), o Terreiro Casa Pai Jacob do Oriente, o Morro em Cena, entre outros. Esses espaços compõem uma cartografia afetiva da negritude em Belo Horizonte em que a cidade é compreendida como corpo vivo e espiralar, atravessado por camadas de tempo, luta e criação.

Inspirado por perspectivas afrocentradas e decolonaiais, pensadas por Molefi Keti Asante, Abdias do Nascimento, Walter Mignolo e Catherine Walsh, o FAN ESPIRALAR 2025 inscreve-se como ato de insurgência estética e epistemológica. Ao ativar rotas de resistência e memória, o festival desloca o eixo hegemônico da produção cultural e propõe novas territorialidades simbólicas que afirmam o protagonismo negro como princípio civilizatório e transformador.

Metodologia espiralar: escuta, coautoria e enraizamento

Ao completar três décadas, o FAN BH propõe não apenas celebrar sua história, mas revisitar criticamente seus modos de fazer, instaurando uma metodologia de construção curatorial e organizacional fundamentada na escuta ativa e na coautoria social. A metodologia espiralar do FAN rompe com o modelo linear e centralizado dos grandes festivais para instaurar um processo contínuo e colaborativo de elaboração que se desenvolve em etapas de escuta, formação e ativação territorial.

A estrutura do festival se organiza em cinco atos, que refletem as etapas de construção coletiva desta edição histórica. O primeiro ato, a Reunião Pública (que aconteceu em outubro/2025), inaugurou o processo com uma escuta aberta à cidade. Em seguida, o FAN Criando Rotas (novembro/2025) consolida um espaço de reflexão, formação e proposição de caminhos, instaurando um novo modo de fazer o festival: participativo, horizontal e enraizado no território – um CANGERÊ. O Chamamento Artístico (janeiro/2026) traduz as escutas em oportunidades concretas de participação, abrindo o processo criativo à pluralidade de vozes negras. O quarto ato, FAN Raízes (março/2026), finca os pés na ancestralidade, promovendo encontros, oficinas e celebrações dentro dos territórios, terreiros, quilombos e espaços culturais afro-brasileiros, reafirmando a força comunitária e espiritual do fazer artístico.

Por fim, o FAN Espiralar (maio/2026) representa a culminância do processo: uma grande celebração da arte negra e do afroempreendedorismo, com shows, exposições, mercado Ojá, atividades formativas e o Fanzinho, dedicado às infâncias e juventudes. Assim, o FAN 30 anos se afirma como um FESTIVAL/PROCESSO que parte da escuta, se nutre das raízes e retorna ao território em forma de celebração coletiva — um gesto de continuidade, resistência e invenção de futuros negros possíveis.

Essa metodologia não é apenas uma escolha técnica, mas um gesto político de redistribuição de poder e saber. Conforme argumenta bell hooks (1995), a escuta radical e a pedagogia da partilha são formas de resistência e reconstrução comunitária. O FAN, ao adotar o espiral como princípio operativo, propõe um festival que “não chega pronto”, mas se constrói em movimento, em diálogo constante com os territórios que o compõem.

Curadoria e programação: arte, rito e futuro

A curadoria do FAN ESPIRALAR 2025 traduz o conceito espiralar em práticas artísticas e educativas, articulando duas dimensões principais: o eixo territorial, que ativa os espaços e memórias da negritude belo-horizontina, e o eixo cosmovisional, que explora as linguagens e epistemologias das artes negras contemporâneas.

A aula magna e vivência com Leda Maria Martins, atividade de abertura do festival, assume papel central na proposição conceitual da edição. Trata-se de uma experiência que combina reflexão filosófica, rito e performance, convidando o público a compreender o tempo espiralar não apenas como conceito, mas como tecnologia de corpo e de existência. Outras presenças relevantes, como os grupos Morro em Cena, Museu dos Meninos – Arqueologias do Futuro, Companhia Os Crespos e Akazulo, reforçam o compromisso do FAN com a pluralidade de estéticas e narrativas que compõem o campo das artes negras no Brasil.

Ao assumir essa estrutura, o FAN ESPIRALAR 2025 se consolida como plataforma de experimentação afro-diaspórica, na qual o gesto artístico é indissociável da dimensão política e espiritual da criação.

Acessibilidade, sustentabilidade e decolonialidade das práticas

A edição de 2025 reafirma a acessibilidade e a sustentabilidade como dimensões estruturantes da política do festival. Inspirado pela ideia de que o tempo espiralar é também um tempo de reparação e continuidade, o FAN adota práticas que asseguram a participação plena de pessoas com deficiência, incluindo tradução em Libras, audiodescrição, legendagem e comunicação acessível.

No campo ambiental e produtivo, o festival orienta-se por princípios de sustentabilidade comunitária, com ênfase na valorização de afroempreendedores, uso de materiais recicláveis e incentivo à mobilidade urbana sustentável. Essas práticas configuram não apenas uma diretriz operacional, mas uma ética afrocêntrica de cuidado e reciprocidade, em consonância com as epistemologias decoloniais que compreendem a sustentabilidade como prática de resistência e continuidade ancestral, na perspectiva apontada por Noguera.

 FAN como espiral de futuro

Ao completar 30 anos, o FAN ESPIRALAR 2025 reafirma o festival como território de passagem entre mundos e tempos, lugar de cruzamento entre o corpo e a cidade, entre memória e invenção. A imagem da espiral, que retorna sem repetir, sintetiza a vocação do FAN: ser espaço de escuta, transformação e criação de novos imaginários sociais.

Mais do que um evento, o FAN é uma tecnologia coletiva de futuro, um gesto de insurgência e continuidade que faz da arte negra o centro da política cultural e da imaginação urbana. Espiralar é, nesse sentido, verbo de resistência e de vida — o movimento que, ao girar, convoca o passado a pulsar no presente e o presente a abrir caminhos para o que ainda virá.

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Rosalia Diogo

Jornalista, professora, curadora do Casarão das Artes Negras, chefe de redação da Revista Canjerê, Dra em Literatura, Pós-doutora em Antropologia.

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