O salão que ressignifica o cuidado com cabelos crespos e celebra a identidade negra em Divinópolis
Por Sandra Flávia Nandaka – Jornalista, empresária e apresentadora
Nascida em Divinópolis, Minas Gerais, Grazi Rufo cresceu sem conhecer o próprio cabelo natural. Como muitas meninas negras, aprendeu cedo que seus fios precisavam ser “domados”. Os pais faziam o que podiam: o pai molhava o cabelo com cuidado, usando uma escova de lavar roupa e prendia-o em coque antes da escola. Aos seis anos, Grazi passou pelo primeiro alisamento e, aos oito, já penteava o cabelo sozinha em um gesto precoce de autonomia.
Um episódio, porém, marcou sua infância. No salão onde frequentava, o pente quebrou durante o alisamento e uma funcionária ironizou: “Nossa, um cabelo mais duro que o meu.”. Envergonhada, chorou em casa e, naquele momento, negou sua negritude, refletindo a violência simbólica presente em espaços que não acolhem crianças negras.
Aos 15 anos, conheceu Patrícia Santos, a trancista que transformou sua percepção sobre o cabelo crespo. Foi com ela que entendeu que seus fios são beleza, arte e identidade. Desde então, decidiu nunca mais abandoná-los. Inspirada pelos flyers de eventos de hip hop que exaltavam pessoas com tranças, Grazi passou a colecioná-los como inspiração para criação de penteados.
Aos 17 anos, sem emprego e com apenas metade de uma bolsa de faculdade, decidiu empreender abrindo o primeiro salão, junto com sua amiga Michele, na garagem da casa dela, oferecendo serviços como escovas, alisamentos e chapinhas, atendendo principalmente mulheres com cabelos crespos que buscavam alisamento. Mal imaginava que, alguns anos depois, o propósito do salão se transformaria completamente: deixar de alisar para passar a valorizar a beleza natural.
Aos 20, iniciou sua transição capilar e realizou o big chop com Patrícia. Em uma feira de beleza em Belo Horizonte, conheceu o salão da Nega Iza, voltado à estética afro-brasileira, experiência que a inspirou a se especializar em cabelos afro e criar um espaço de reconexão para mulheres negras.
Sem cursos especializados na época, Grazi assistia a vídeos em lan houses que ensinavam técnicas de cuidado com cabelos naturais. Aprendeu corte a seco, hidratação com produtos naturais e a preparar gel de linhaça que aplica até hoje nas clientes, com resultados surpreendentes.
O boca a boca se espalhou e, em 2017, foi inaugurado o Espaço Grazi Rufo, que mais tarde evoluiu para o Grazi Rufo Beleza Afro. O espaço passou a celebrar a diversidade das texturas afro-brasileiras, com foco em cabelos crespos e cacheados, deixando para trás a lógica dos alisamentos e da chapinha que marcava o início da trajetória.
O sucesso trouxe desafios: agenda cheia, rotina exaustiva, atrasos nos atendimentos e pressão. Foi então que sua amiga, Sandra Flávia Nandaka ofereceu consultoria em afroempreendedorismo e gestão, ajudando-a a organizar o salão com planejamento e estratégia.
Mais tarde, Grazi contratou uma assistente, a Luna, e passou a organizar a agenda e delegar funções. A assistente também a inspirou mudar o salão para o centro da cidade, facilitando o acesso de clientes de outras regiões e cidades. Para viabilizar a mudança, alugou a própria casa que havia financiado, somou esse recurso ao aluguel que já pagava na periferia e passou a morar no novo salão. O espaço foi reconstruído do zero, agora com mais propósito, estrutura e identidade. Luna também foi fundamental para que ela compreendesse que pessoas pretas não apenas resistem, mas merecem e devem viver o conforto. Com uma uma equipe alinhada ao propósito do salão, o crescimento foi só uma questão de tempo.
Grazi comandava uma equipe grande e tinha rotina exaustiva que, somada à pandemia, a levou ao limite físico e emocional e o diagnóstico de burnout. “ Eu trabalhava 17 horas por dia, às vezes até 20. Morava e trabalhava no mesmo lugar, sem tempo para me alimentar, descansar ou cuidar da saúde”, relembra. Hoje, o Espaço Grazi Rufo Beleza Afro vive sua terceira fase, marcada por mais uma mudança de endereço. Não morar no local de trabalho foi uma das decisões centrais da empreendedora, reafirmando novos limites, amadurecimento, saúde e sustentabilidade na trajetória do negócio.
Um novo estilo de vida
Após o diagnóstico de burnout, Grazi criou um novo estilo de vida. “A dança é minha paixão e também uma forma de cura. Já participei de aulas na minha cidade, Divinópolis, com Camilo Gan, em BH, e aulas de danças negras na Funceb, em Salvador. Já fui bailarina de Axé, então a dança faz parte de mim. Vou sempre em Salvador beber da fonte. Também busco a natureza, valorizo mais o silêncio e introspecção. Amo correr ao ar livre, observando flores, árvores e o céu. Esses gestos me dão equilíbrio. Ao refletir sobre minha trajetória, sinto orgulho do que construí e sempre me pergunto se a Grazi de 7 anos se orgulharia da mulher que sou hoje e a resposta é sempre sim. Apesar das dificuldades da infância e adolescência, nunca deixei de acreditar em mim, enfrentei fome, crises, inseguranças e até o risco de ver meu negócio ruir durante a pandemia, mas perseverei.”.
A cabeleireira relata que a história do seu povo lhe ensina a perseverar mantendo a autenticidade, a verdade e a alegria, que são os maiores presentes que ela pode oferecer ao mundo. O esgotamento marcou o ponto de virada na trajetória de Grazi. Ela reduziu a estrutura do salão, dedicou mais tempo a si mesma e, com a assessoria administrativa de Stephanie, reorganizou finanças, criou reservas e planejou cada passo com clareza. Atualmente, o espaço opera com uma equipe enxuta e especializada, além de parcerias estratégicas como serviços de marketing e loja interna para venda de cosméticos.
Grazi Rufo Beleza Afro é um espaço de pertencimento e reconexão, onde cada cliente vivencia um processo de autoconhecimento e fortalecimento da autoestima. Vale ressaltar que além de empreendedora e cabeleireira, atua também como professora técnica na formação de cabeleireiras.
Entre seus novos projetos, está o lançamento de uma linha de cosméticos, para que clientes cuidem de cabelos afro em casa, pois fios volumosos e crespos ainda são pouco atendidos pela indústria da beleza.
Em 2025, a empreendedora celebrou 15 anos de carreira e 13 anos como especialista em cabelos afro, ” Ao iniciar, não existiam salões especializados na região, e usar o cabelo crespo solto era quase um ato de rebeldia. Acredito que aceitar-se é um gesto de beleza, autoestima e poder. Finalizou.”
Foto: Mauro e Núbia