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Literatura, Tradição e Cultura em Moçambique

Crédito: Rosália Diogo

Infelizmente, nós, brasileiras e brasileiros lemos pouco a literatura africana, o que inclui a literatura moçambicana, com certeza. Aprendi algumas sobre as tradições moçambicanas, sobretudo acerca dos rituais, lendo Paulina Chiziane e Mia Couto.

Agora, vivendo em Moçambique tive a rica oportunidade de conhecer o escritor e atual Secretário Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos – AEMO, Carlos Paradona. Li três obras dele que me fizeram aprofundar o conhecimento sobre os rituais e a importância deles nos modos de vida e costumes dos moçambicanos, principalmente os do norte do país.

Na obra Mueda – Nos labirintos dos Ritos de Iniciação (2024, 2ª edição), é possível entender a importância que as pessoas, contextualizadas no romance na cidade  de Mueda, situada no Norte do país, dão à cerimônia de Kuajaluka Kwá Valy , que marca o fim dos ritos de iniciação. Rito ess,e que ensina mulheres e homens jovens os bons modos de se preparem para serem bons amores para aquela pessoa com a qual vai desposar em breve! Eu arriscaria dizer que técnicas de sedução são ensinadas por um mestre, ou sábio.

Ao ler N’Tsai Tchassassa – A virgem das Missangas  ( 2020, 2ª edição), fiquei bastante impactada em saber da história de uma virgem, que é possuída pelas almas.  A virgem ficou, presumidamente, grávida de algum defunto. Em paralelo, um certo curandeiro indicou que ela fosse a segunda esposa do marido da irmã!  Um enredo surpreendente, que nos leva a imaginar que o autor, Carlos Paradona leu e se inspirou nas obras do escritor brasileiro, Murílio Rubião, com a sua literatura que tem como referência o realismo fantástico!

Pita Kufa – O leito da Morte ( 2024, 1ª edição), também nos remete à ideia de que há aproximações entre a literatura de Paradona e a de Murilo Rubião.  Uma comunidade que pratica o ritual do Pita Kufa (processo de purificação da viúva ou do viúvo). Fica evidenciada a quantidade de pessoas que começam a morrer em uma dada comunidade, em curto espaço de tempo e a busca de curandeiros para se entender as variadas situações inusitadas que começam a acontecer no Povoado de Gombe- Gombe, onde a prática da poligamia era cultural.

Enfim, não vou revelar detalhes das obras que li, pois estou incentivando que vocês leiam mais obras de autores africanos, o que inclui a leitura de moçambicanos, por consequência.

Importa-me referenciar que muitos conceitos, termos e palavras apresentadas nas três obras citadas, me oportunizou conhecer muito das tradições culturais de Moçambique. Observamos que o escritor, que é sociólogo, nos nutre com a sua interessante forma de “moçambicanizar a língua portuguesa introduzindo nela ritos, sabores e falares”, assim como bem diz o filósofo moçambicano, Severino Ngoenha.

Sobre o autor:

Carlos Paradona Rufino Roque, nascido em Inhaminga, Província de Sofala, concluiu a 4ª classe na Escola Primária Oficial do Dondo, em 1973. Posteriormente, frequentou os então Ciclo Preparatório Dr. Baltazar Rebelo de Sousa e Liceu Pêro de Anaia, na Cidade da Beira e foi estudante moçambicano na República de Cuba. Carlos Paradona Rufino Roque, é membro da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), desde a sua fundação, e representa Moçambique, desde 2009, no Corpo de Jurado do Grande Prémio SONANGOL de Literatura, República de Angola. Ele é licenciado em Direito pela Universidade Eduardo Mondlane- UEM, possui curso de Mestrado em Sociologia pela Universidade de Pretoria, e é Doutorando em Administração e Políticas Públicas, pela Universidade de Lisboa.

Em 1980 publica os seus primeiros poemas na página Diálogo, do extinto jornal Notícias da Beira. Colaborou ainda com poesia, contos e ensaios nas páginas Diálogo do Diário de Moçambique, Letras e Artes do Jornal Domingo, nas Revistas Tempo, Charrua, Forja e Eco ao longo das décadas de oitenta e de noventa. Em 1992 publica o seu livro de poemas A Gestação do Luar e, mais tarde, os romances Tchanaze, a Donzela de Sena (2009), N’tsai Tchassassa, A virgem de Missangas (2013) e Carota N’tchakatcha, Feitiços e Mitos (2019).  N’Tsai Tchassassa – A virgem das Missangas   (2020, 2ª edição) . Mueda – Nos labirintos dos Ritos de Iniciação (2024, 2ª edição). Pita Kufa – O leito da Morte (2024, 1ª edição). O escritor tem obras publicadas em Portugal, na Espanha, Reino Unido e China (Macau).

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Rosalia Diogo

Jornalista, professora, curadora do Casarão das Artes Negras, chefe de redação da Revista Canjerê, Dra em Literatura, Pós-doutora em Antropologia.

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Marcial Ávila, é graduado em Artes Plásticas e especialista em Escultura, pela Universidade Estadual de Minas Gerais – UEMG / Escola Guignard. Pós-graduado em Estudos Africanos e Afro-Brasileiros pela PUC Minas.