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Leitura ao Domicílio: o projeto que leva livros e esperança às casas da periferia de Luanda

Foto: Aniceto da Silveira

Criado em 2020 pelo estudante de Direito Aniceto da Silveira, o projeto Leitura ao Domicílio nasceu de uma experiência pessoal marcada pela exclusão e pela falta de acesso aos livros acadêmicos. “Os meus colegas não aceitavam compartilhar os manuais comigo porque eu não tinha nada para lhes dar em troca. E uma vez o professor me expulsou da sala de aula porque não tinha o livro de MIC, Método de Investigação Científica”, lembra.

Diante desse cenário, Aniceto decidiu transformar sua indignação em ação. Começou com apenas oito livros do seu curso. Usou as redes sociais para anunciar que emprestava os títulos gratuitamente por trinta dias e que a entrega seria feita pessoalmente, no endereço do interessado. Com uma mochila nas costas, percorreu Luanda (Angola) oferecendo livros de diversas áreas do saber de forma inteiramente voluntária.

Apesar da nobreza da iniciativa, os primeiros passos foram solitários e acompanhados de críticas. “Familiares e amigos começaram a me tratar como doido, diziam que eu não iria para lugar nenhum e que essa gente não gosta de ler”, conta. Mas o apoio da família foi essencial para seguir adiante. “Superei com os abraços e beijos da minha companheira e dos meus filhos. Estava seguro de que percorria o caminho certo, com tantos espinhos, mas é o caminho a seguir.”, assegura.

Hoje, o projeto tem sua base na comunidade da Estalagem Km 12-A, onde crianças, adolescentes e jovens encontram um espaço seguro para desenvolver o gosto pela leitura, escrever, declamar poesia e fazer teatro. Ao todo, cerca de 50 crianças entre 5 e 13 anos participam das atividades oferecidas. “A comunidade está muito feliz”, resume Aniceto.

Para dar vida ao projeto, o idealizador tomou uma decisão radical: transformou a própria residência em uma biblioteca comunitária e passou a viver numa casa alugada com sua família. A motivação, segundo ele, veio de uma conversa com seu filho. “Fiquei triste quando um dia levava os meus filhos à escola e, de repente, o meu filho perguntou: “Papai, por que esses meninos não vão à escola?”. Não soube como responder. Então falei com a minha parceira que precisávamos fazer uma biblioteca comunitária. Ela topou, e fizemos. E somos muito felizes.”.

Os planos para o futuro são ambiciosos: multiplicar bibliotecas como essa por todo o país e garantir a distribuição de materiais didáticos a cada novo ano letivo. “Sobretudo, esperamos contar com parceiros que ajudem a pagar as nossas contas correntes”, afirma.

Na visão de Aniceto, o impacto da leitura vai muito além do conhecimento. “Ler estimula o raciocínio, ativa o cérebro, aumenta a imaginação, melhora o vocabulário, desenvolve o pensamento crítico, combate o estresse, dá um gás motivacional, amplia a criatividade e estimula a concentração. O leitor transforma a sua escrita. É bem verdade: quem lê nunca é a mesma criatura.”.

Quem quiser apoiar o Leitura ao Domicílio pode entrar em contato pelas redes sociais ou pelo número de telefone +244 945 483 276. O projeto ainda não possui conta bancária própria, mas segue transformando realidades por meio do poder da leitura.

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Rosalia Diogo

Jornalista, professora, curadora do Casarão das Artes Negras, chefe de redação da Revista Canjerê, Dra em Literatura, Pós-doutora em Antropologia.

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